Nem eu nem ninguém poderemos percorrer este caminho por ti. Tu próprio terás de
fazer a viagem.
Walt Whitman
Os Arcanos Maiores e a viagem de O Louco
O Tarot é um livro de imagens simbólicas, a sua linguagem fala à nossa imaginação, ao nível mais profundo do
nosso eu que se exprime através dos sonhos, dos
mitos,
dos contos de fadas, e que evocam universalmente grupos de emoções, sentimentos, intuições, percepções ou sensações que escapam à nossa compreensão meramente lógica e racional. É o mundo do
inconsciente,
tão distante e tão próximo da consciência.
Atravessar a ponte que vai do inconsciente ao consciente é a jornada arquetípica do Tarot, reinventar o mistério da consciência e da sua relação com o grande inconsciente, fonte da vida. Ao reconciliarmo-nos com o que de
mais profundo temos em nós sem o reprimirmos, adquirimos um grau mais elevado de autoconsciência.
É esse o sentido da viagem do Arcano 0 através dos restantes Arcanos. O Louco
é a pura inocência e encerra, em si, um número de infinitas possibilidades.
É amante do risco e parte à aventura. Nos seguintes 21 estágios vivenciará diferentes personagens e experiências
humanas que são aprendizagens de vida. No fim, regressará a casa.
Mas, essa, já será uma casa diferente, será a sua casa. E O Louco
terá cumprido a sua missão: a realização do seu eu mais íntimo no mundo. É o caminho da liberdade, mas de igual modo, o caminho da responsabilidade, porque de sabedoria se trata, de uma sabedoria ancestral
actualizada no tempo. Sabedoria para encontrar respostas criativas à pergunta universal “quem sou, de onde venho, para onde vou”.
Ao conhecer-se, O Louco
reencontra O Mundo como lugar de realização da sua
individualidade e concretiza a unificação consciente do ser com a
totalidade das grandes forças da vida. Na realidade, é possível que, à partida, a sua inocência jamais tenha existido, mas que, antes e ao fazer o percurso através dos outros Arcanos, tenha reeencontrado essa inocência
perdida.
E assim, se
O Louco voltar a partir, será um outro homem, ou se preferirmos, um homem novo.
E será uma nova viagem. É a via da
alquimia interior que encontramos no percurso dos Arcanos Maiores:
o caminho da autotransformação da consciência em busca do sentido íntimo da existência.
Os Arcanos Maiores agrupam-se em três septanários (á excepção de O Louco)
que exprimem os três âmbitos da experiência humana:
1º Septanário: a afirmação pessoal na sociedade;
2º Septanário: o processo de autoconsciência;
3º Septanário: a realização do verdadeiro eu actuante no mundo.
De um modo sintético, enumeram-se as palavras-chave que exprimem os conceitos fundamentais associados aos Arcanos Maiores:
O LOUCO: espontaneidade; originalidade; alegria; prazer; novidade; optimismo; fé; liberdade; aventura; risco; escolha intuitiva; imaginação; curiosidade; instinto; potencial criativo; busca de um novo caminho desconhecido;
viver a criança interior que habita na dimensão profunda do nosso ser.
1º Septanário:
O MAGO: acção, criatividade; autoconsciência; inteligência; destreza; existência de um propósito activo de vida; habilidade; diplomacia; mestria; força de vontade; concentração; poder; comunicação; liderança efectiva sobre
o curso dos acontecimentos da vida.
A GRANDE SACERDOTISA: intuição; sensibilidade; confidência; discrição; reserva; sabedoria; compreensão; bondade; calma; concentração; meditação; estudo; a voz interior; os poderes do inconsciente; passividade;
espera; paciência; secretismo; mistério.
A IMPERATRIZ: prazer sensual; sociabilidade; criatividade; inovação; expressão artística; fertilidade; nascimento do novo;crescimento; maternidade; natureza; protecção; influência feminina; acção baseada na inteligência
emocional.
O IMPERADOR: estabilidade; ordem; autoridade; leis; sociedade; organização; capacidade para concretizar projectos; disciplina; método; poder material; habilidades pragmáticas; domínio da razão sobre o sentimento; o
patriarca.
O HIEROFANTE: estudo e aprendizagem; partilha de uma herança cultural; ortodoxia; dogma; tradição; princípios éticos; concórdia; mediação; aliança; protecção; um conselheiro; um terapeuta.
OS ENAMORADOS: capacidade para viver uma experiência amorosa; exercício do livre-arbítrio para decidir uma situação; dualidade de escolha perante soluções em alternativa; autoresponsabilização; decisão baseada no desejo
íntimo do coração.
O CARRO: autocontrolo; disciplina; autodeterminação; estabelecimento da sua própria identidade; manutenção do equilíbrio interior e exterior; capacidade de transformar impulsos opostos num único impulso direccionado para a
acção; espírito aventureiro.
2º Septanário:
A FORÇA: coragem; autodisciplina; vontade; autocontrole; perseverança; determinação; charme; sexualidade; magnetismo; paixão; capacidade de empreendimento; disposição para enfrentar riscos; vitalidade física e psicológica.
O EREMITA: introspecção; ascese; o conhecimento que advém da maturidade: prudência; sabedoria adquirida pela experiência de vida; austeridade; solidão; isolamento; o valor do tempo; a espera sábia e reflectida; a
preparação interior para a acção; o mestre; o guia interior.
A RODA DA FORTUNA: mudanças rápidas de ordem pessoal e profissional; novas oportunidades; acontecimentos inesperados que ajudam a libertar e a expandir a consciência; desenvolvimento de uma visão pessoal através da
compreensão dos movimentos cíclicos da vida; apelo ao livre-arbítrio para intervir de forma activa no curso dos acontecimentos.
A JUSTIÇA: assuntos legais; compromissos; acordos; negociação; racionalidade; objectividade; equilíbrio determinado pela ordem e pelo rigor do pensamento e da acção; rectidão e honestidade; acção baseada em príncipios
éticos; capacidade de julgamento com isenção; estabilidade; prudência.
O DEPENDURADO: mergulho no eu interior; busca da essencia do ser; meditação; desenvolvimento espiritual; dedicação a uma causa com espírito de sacrifício, de voluntariado e de abnegação; interregno; suspensão no
tempo; passividade voluntária.
A MORTE: período de transformação e mudança; fim de um ciclo e começo de uma nova fase; destruição do velho e preservação da essencia do novo; abandono do supérfluo e conservação do essencial.
A TEMPERANÇA: união; empatia; conciliação; integração e equilíbrio de energias opostas; harmonia e paz entre o corpo e o espírito; a justa medida no pensamento e na acção.
3º Septanário:
O DIABO: dependências físicas, psicológicas e materiais; obsessão ou demasiado controlo emocional; repressão dos instintos pelo intelecto; medos e sentimentos bloqueados que, ao serem libertados, podem exprimir uma intensa
fonte de energia criadora.
A TORRE: acontecimentos bruscos que alteram profundamente a vida; destruição de velhos padrões de comportamento; ruptura como forma de saír de situações opressivas; a experiência libertadora que conduz à consciência de si.
A ESTRELA: esperança; serenidade; paz interior; equilíbrio; simplicidade; naturalidade; plenitude espiritual; optimismo na vida e confiança no futuro.
A LUA: introspecção, imaginação, sonhos, fantasia, ilusões; medos; projecções; insegurança; ansiedade; revisitação ao passado através da memória; a casa, a família, a intimidade, a mulher.
O SOL: optimismo; percepção da beleza da vida; entendimento; iluminação; encontrar o sentido da ordem no caos; autoconfiança; inteligência; criatividade; estar aberto à vida e amá-la conscientemente.
O JULGAMENTO: transformação e expansão da consciência; mudanças interiores profundas; despertar para a vida; sentir um impulso súbito para agir em conformidade com a sua voz interior; saldar situações pendentes do
passado; libertação; renascimento; nova vida.
O MUNDO: realização plena do eu que encontra o seu lugar no mundo; sentir a vida intensamente no quotidiano; realizar o desejo íntimo do coração; centrar-se em si mesmo para estar em sintonia com o mundo.
É fácil compreender que este processo embora sendo, na sua essência, um caminho interior, nele é visível o facto de que mudanças internas apressam acontecimentos externos, e de que acontecimentos externos incentivam
mudanças internas. A vida interior e a vida exterior são indissociáveis porque a consciência é o centro de ambas.
É por esta razão que os símbolos dos Arcanos Maiores não só representam experiências que exprimem a condição humana, mas também conferem dignidade ao homem e à própria vida.
Os Arcanos Menores, os tipos psicológicos e a simbologia do número
Os quatro naipes do Tarot (Paus, Copas, Espadas e Ouros) denominados Arcanos Menores descrevem, com maior pormenor e a um
nível mais personalizado, o caminho expresso nos Arcanos Maiores. As cartas numeradas representam experiências e situações quotidianas de vida. As figuras encarnam
tipos
psicológicos quer se tratem de pessoas reais quer de estados psicológicos
da própria pessoa. De forma resumida, pode dizer-se que os quatro naipes são descrições da experiência humana em quatro dimensões psicológicas e práticas da vida, correspondendo à caractereologia dos quatro elementos
primordiais: fogo, água, ar e terra.
NAIPE DE PAUS
Elemento Fogo | O Mundo da Criatividade: função psíquica Intuição
Motivação, acção, energia, desejo, poder, paixão, inspiração, iniciação, entusiasmo, vontade, esforço, crescimento, impulso, vontade, criatividade,
liberdade, empreendimento, carreira; o superconsciente.
NAIPE DE COPAS
Elemento Água | O Mundo da Sentimento: função psíquica Sentimento
Relacionamentos, emoções, sentimentos, receptividade, psiquismo, visão, imaginação, anseios, medos,
sonhos, fantasias, sensualidade, prazeres, sensibilidade artística; o inconsciente.
NAIPE DE ESPADAS
Elemento Ar | O Mundo do Pensamento: função psíquica Pensamento
Actividade mental, ideias, intelecto, lógica, razão, análise, planeamento, decisão, mudança, comunicação, opiniões, juízos, disciplina, dificuldades, privações, desafios de vida; o consciente.
NAIPE DE OUROS
Elemento Terra | O Mundo da Matéria: função psíquica Sensação
Estabilidade, solidez, pragmatismo, perseverança, obstinação, assuntos materiais, possessões, recursos, dinheiro, negócios, trabalho, prosperidade, segurança, generosidade, saúde; o físico.
As figuras apresentam um conjunto de características psicológicas genéricas cuja especificidade deve ser interpretada no âmbito da simbologia do naipe a que pertencem.
OS REIS : maturidade, realização, poder, autoridade, responsabilidade social.
AS RAÍNHAS: estabilidade, receptividade, compreensão, sensibilidade.
OS CAVALEIROS: energia, movimento, acção, afirmação do ego.
OS PAGENS: juvenilidade, curiosidade, aprendizagem, comunicação.
As cartas numeradas constituem um sistema numerológico cujas palavras-chave estão associadas à
simbologia do
número
aplicada à esfera da vida representada em cada naipe.
OS ÁSES: começo, iniciação.
OS DOIS: dualidade, elementos opostos em equilíbrio ou conflito.
OS TRÊS: criatividade, crescimento e expansão.
OS QUATRO: estabilidade, realidade, lógica e razão.
OS CINCO: perda, conflito, desafios e aprendizagens de vida.
OS SEIS: relacionamentos, harmonia, equilíbrio, partilha.
OS SETES: luta e resistência, movimento e mudança.
OS OITOS: transformação e regeneração.
OS NOVES: união, integração, consolidação.
OS DEZ: perfeição, conclusão de um ciclo acompanhado de um novo começo.
Porque o final é sempre um reinício, a vida é um perene desafio. Aceitar a vida como um teste de mudança, consciencializar, agir e tranformar as energias que dão forma aos dias é a missão de quem procura dar um sentido
único e próprio à vida. Como afirma Teresa de Melo: " Supostamente tudo o que ocorre a alguém tem um sentido: há uma lição a aprender, uma energia a conquistar, um poder a recuperar".
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